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quinta-feira, agosto 23, 2018

A janela - Um escape em dias cinzentos

São exatamente, 22:23h, e aqui estou eu na janela desse quarto, mas tudo bem pra mim, é meu escape em dias cinzentos. Tudo é tão calmo visto daqui, às vezes o silêncio envolve a noite, mas hoje não, posso ouvir bem longe o canto de um pássaro. Lá fora, visto aqui da janela, parece outro mundo, diferente desse do qual me sufoca todos os dias.
Imagine que a janela do quarto é como uma pessoa que te encanta apenas te olhando nos olhos, você fica ali, imóvel, apenas olhando fixamente pra ela, enquanto ela conduz sua mente e você se desprende de si mesmo. Através da janela você é conduzido à um mergulho em sua mente.
Aqui dessas grades enferrujadas posso contar nos dedos as nuvens que vejo, parecem desfilar nessa imensidão escura do céu.
E lá está o passarinho pousado no fio do poste, cantando timidamente e sem dar a mínima para o frio insuportável que está fazendo. O vento é quase imperceptível, ainda assim, a leve brisa balança as rabiolas de pipas enroscadas nos fios; minhas orelhas estão congeladas.
Minha vizinha, Claudiane, está me gritando lá fora.
— Vai dormir, Ana!
 — Já vou, Claudiane! — respondi no mesmo tom.
Claudiane é daquelas vizinhas que sabe o CPF de todos os moradores do bairro, se é que você consegue me entender. De manhã, nem preciso ligar a TV pra assistir o noticiário, basta pegar um café e aparecer na porta que o jornal começa.
Claudiane acharia engraçado, ou até me chamaria de maluca se soubesse o que faço aqui na janela, se ouvisse minha mente, mas é algo que faço com frequência, pra sair dessa realidade do dia a dia. Como eu disse: “É meu escape em dias cinzentos”. Eu preciso, e acredito que todos nós precisamos de um escape, seja ele qual for, só precisa nos desligar por alguns minutos, talvez horas, e nos levar para um lugar onde podemos encontrar com nós mesmos, achar nossa paz, nossa alegria, nossa essência perdida.
Bem. Agora preciso voltar à tona e fechar a janela. Tenho compromisso às 4:26h da manhã, com minha insônia.
Por Lyu Somah

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